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    Metáfora de viver


    A fuga da poetisa

    Por que emudeces?

    Cala-te diante da história ruim

    como se dela nada sobrasse.

    “Do mau amor o bom em mim”,

    seria o certo sempre dizer.

    E faça-o florescer,
    senão te padeces.

     

    Por que te escondes?

    Lia-te em letras miúdas,

    Em horas vagas, vazias.

    Lia tanto, tanto

    e de avidez tão absurda,

    que escrevia, escrevia...

    Agora me faço muda.

     

    Lembra que dizia?

    “Queria promulgar a certeza
    de palavras concretas sobrepostas à poesia”

    Peço, pois, o in-verso.

    Que as falas mais certas,

    acertadas se escreviam

    em poemas que te peço.

     

    Preencha-me as horas, as dúvidas.

    Quero saber-te,

    mesmo espinafrando o passado,
    justificando versos em palavras avessas

    Teus ou meus - não importa.

    Quero ler-te em brandos escritos.

    Ou pesados.

     

    Por que emudeces?

     

    Temo encontrar-te morta.

     

    *******

     

    Mora nas palavras...

    ...o passado escondido.
    ...a mentira implícita

    ...o mal não revelado.

    ...o sentimento reprimido.

    Vêm em metáforas.

     

    ********



    Escrito por Ju Goyano às 11h59
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    Dia comum

    Amor, traz o café hoje cedo.

    Traz pão, manteiga e leite.

    Cobre a criança, que está frio.

    Vem cá, beija-me o seio.

    Lamba-me a boca de arrepios

    e diga coisas tortas.

    Faz a coisa certa,

    Não larga aquele emprego.

    Traga dinheiro, o teto está feio.

    Apara a grama, alimenta o cão.

    Olha a criança correndo!

    Deixa, não!

     

    Viste meu cabelo novo?

    Gostaste, pelo menos?

    Não dirás que não.

    Fiz almoço, macarrão.

    Diga se gostas.

    E se não gostas.

     

    Ao chegares, tranca a porta.

    Quero falar do menino,

    da escola, do chão.

    Fizeste o que lhe falei?

    Vem jantar, então.

    Um pouco de sobra, de tudo.

    Amor, teu pijama tá limpo.

    Vem deitar, te espero na cama.

    Prometo ficar quietinha,

    enquanto te inflamas.
    Cubra-me o corpo com o teu.
    Mas não pode ficar tarde.

     

    Vem...

    Boa noite, amor.

     

     

     

     

     

     

     



    Escrito por Ju Goyano às 11h58
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